REITORIA

Mulheres em Goiás: Presença e História

MULHERES EM GOIÁS: PRESENÇA E HISTÓRIA
  
                                                                                                Prof. Wolmir Therezio Amado
                                                                          Reitor da Universidade Católica de Goiás


Muitas mulheres brasileiras lutam há décadas para tornar visível ao conjunto da sociedade a presença das mulheres: sua vida, a luta e o trabalho por ela realizado de produção de bens e idéias, bem como de reprodução da própria vida humana. O manto da invisibilidade pairou durante muitos séculos sobre o papel, o significado e a importância das mulheres na história. O reconhecimento desta presença tornou-se uma questão de justiça e eqüidade.Agora é tempo de conhecer a história das mulheres no mundo, no Brasil e em Goiás.
Há hoje um enorme mutirão de pesquisas e de publicações que visam trazer a lume o nome e a vida das mulheres que os registros, a memória e a história guardaram. Lendo o excelente “Dicionário das Mulheres do Brasil”, me ocorreu buscar ali, entre a miríade de mulheres históricas deste país, o nome das goianas mencionadas. Indígenas, brancas, iletradas ou instruídas, pobres ou ricas.
Apenas uma pequena parte passou à posteridade da grande obra histórica, construída nesta região, coração de nosso Brasil. E no seu nome, neste ano de 2007, como faço a cada ano, desde 2003, quero homenagear a todas as mulheres do Programa Interdisciplinar da Mulher Estudos e Pesquisa (PIM-EP), da Universidade Católica. Digo-lhes: a história nos ensina que as mulheres lutaram, amaram, sofreram, trabalharam, rezaram, se casaram, se separaram, viveram e morreram. Deram seu quinhão por si, pelos seus, pelo seu tempo e pelas gerações futuras. Em memória de tantas outras, rememoramos algumas - Catiúra, Chica Homem, Cora Coralina, Damiana da Cunha, Mestra Inhola e Santa Dica – e um pouco de cada uma destas goianas notáveis.
Catiúra era uma índia Araxá, nascida, por volta do ano 1770, na fronteira de Goiás e Minas Gerais, filha do cacique Andiá. Catuíra passou à história porque, no dia de seu casamento, sua aldeia foi atacada e totalmente destruída. Motivo: entre os convidados de Catuíra estavam presentes na cerimônia seus amigos negros quilombolas, de um quilombo da região.
Chica Homem foi mulher de grande coragem. Filha de mulher índia e de português, era conhecida por sua grande coragem e destemor. Nasceu no sertão de Goiás, no século XVII, e vivia em São Paulo de Piratininga, de onde partiu inúmeras vezes para os sertões, como membro ativo no movimento das “entradas” aos sertões. Domadora de potros, guerreira que manejava bem as armas de fogo. Fumava cachimbo, curava os feridos com ervas e ungüentos, características de sua matriz indígena. Guerreou e aprisionou indígenas para levá-los a Piratininga, ao lado dos colonizadores, heranças de sua matriz portuguesa.
Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas nasceu na Cidade de Goiás, no dia 20 de agosto de 1889, teve uma longa vida. Nos seus 84 anos, foi a “Aninha Feia”, a “Concubina Fugitiva”, a “Anônima Mãe de Família”, a “Filha Pródiga que Volta”, a “Doceira de Mão Cheia”. Mas, sobretudo, se tornou poeta reconhecida e admirada, a partir dos anos 60, com o sonoro codinome de Cora Coralina.  Poeta que manteve as inclinações e ligações telúricas com sua terra, Goiás, em toda a sua obra e, ao mesmo tempo, escreveu poesia boa, universal.
Damiana da Cunha era uma mulher da nação Kaiapó, filha de cacique. Capturada, por volta do ano 1780, foi batizada e teve por padrinho o governador da capitania Luís da Cunha Menezes, donde provém seu sobrenome. Os Kaiapós foram aldeados em São José de Mossâmedes e em Maria (aldeia assim chamada em homenagem à rainha D. Maria I). Havia conflitos constantes entre indígenas e colonos, e havia mortes. Damiana da Cunha, cristianizada, dispôs-se a catequizar os indígenas aldeados e fazer entradas nos sertões, buscando pacificar, aldear e ensinar a fé cristã aos Kaiapós. Sua história enuncia os mecanismos, complexos, do violento encontro de mundos e de culturas que se deu em Goiás colonial.
Pacífica Josefina de Castro – Mestra Inhola – nasceu em Vila Boa no dia 21 de setembro de 1846. Filha de proprietário de terras e escravos, desde jovem era inconformada com as condições de vida nas senzalas e com os maus-tratos a que eram submetidos os escravos. As rações de alimentos eram sempre insuficientes e a fome grassava entre a escravaria. A jovem Pacífica driblava a vigilância paterna e a do encarregado do celeiro e distribuía dali uma nova provisão de alimentos aos escravos. Estudou na escola da mãe e, como professora, fundou sua própria escola onde ministrava as primeiras letras e cálculos. Mestra Inhola faleceu em 11 de fevereiro de 1932.
Benedita Cipriano Gomes-Santa Dica nasceu em Lagolândia, distrito de Pirenópolis (GO), no dia 13 de abril de 1906. Desde criança apresentou manifestações espirituais e, adolescente, manifestava o dom da cura, para contrariedade de sua família. Aos dezesseis anos, sofreu uma grave crise de ausência; a família preparava o sepultamento quando Benedita despertou, surpreendendo a todos. Sua fama de santa se espalhou na região e o povo afluía a Lagolândia para vê-la. A partir de 1923, Benedita liderou um grupo de fiéis que formava uma comunidade agrária chamada Corte do Anjos. A comunidade crescia. Benedita liderava a organização da vida comunitária, a utilização coletiva das terras, os rituais e as celebrações. Determinou o não-pagamento de impostos ao governo. Temendo um novo Canudos, fazendeiros, líderes religiosos e imprensa fizeram uma campanha pedindo a intervenção do  governo e ironizando a figura da líder com o título de “Santa Dica”. O governador Brasil Caiado hesitou em atacar a Corte do Anjos, pois a própria Santa Dica havia juntado seu batalhão de homens às tropas caiadistas, liderando-os no rechaço à  Coluna Prestes, em 1925. Hesitou, mas não pode resistir às pressões para atacar a comunidade messsiânica.  Embora a imprensa lhe atribuísse propósitos políticos, Santa Dica defendia a propriedade comunal das terras porque isso lhe parecia mais adequado a uma comunidade cristã, como era a Corte dos Anjos. Atacada, fugiu a nado pelo Rio do Peixe. A lenda se firmava. Presa, foi julgada duas vezes, demonstrando galhardia na defesa de seus adeptos, também julgados. Banida de Goiás, foi levada ao Rio de Janeiro em 1926, onde teve contatos com intelectuais e artistas. Vivendo maritalmente com o jornalista Mário Mendes, voltou a Goiás em 1926 com o propósito de refazer sua comunidade. Em 1932, a pedido do interventor Pedro Ludovico, Santa Dica lidera um grupo de goianos que se juntam às tropas legalistas, comandadas por Siqueira Campos. Em 1934 é novamente presa e a comunidade se desfaz para sempre. Santa Dica continua atendendo os fiéis em sua casa, em Lagolândia. Líder política, Dica teve carisma para eleger prefeito de Pirenópolis e depois deputado o jornalista Mário Mendes, de quem depois se separou. Morreu no dia 09 de novembro de 1970, em Pirenópolis.
Essas partes de nossa história são como que partes de nós mesmos. A vida e os feitos dessas mulheres em Goiás – dignos de serem contados – nos ensinam a olhar com muito mais acuidade a história que estamos construindo. Desde o passado, mulheres nos olham; desafiam nossa capacidade de reinventar o nosso presente e de criar um outro futuro, um mundo novo, uma outra história.


        Prof. Wolmir Therezio Amado
Reitor da Universidade Católica de Goiás




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